Para apoiar minhas falas, escritas ou verbais, sobre o que permeia o envelhecimento e a sua relação com o que fazemos no cotidiano – que vou chamar aqui de ocupações – me apoio em referências que sempre atravessam, obviamente quem sou e o propósito das minhas ações.

Ao ser convidada (pela SBGG-Rio) para falar sobre Felicidade e Envelhecimento: “O que faz sentido na velhice?” em um Simpósio de Terapia Ocupacional, cujo tema era “Um olhar sobre ocupações significativas na velhice”, eu sabia que precisaria permear por significado das ocupações, o processo do envelhecimento e o bem-estar-subjetivo (como a felicidade é nomeada ao ser estudada).

Significado das Ocupações

Para terapeutas ocupacionais pode ser redundante dizer, mas sempre é importante falar o que significa o termo Ocupações:

“[…] o termo ocupação denota envolvimento personalizado e significativo em eventos da vida diária por um cliente específico. […] A participação em ocupações é considerada tanto o meio como o fim na processo de terapia ocupacional.” Essa citação vem do Estrutura da Prática (2020) que reforça que a ocupação é o que queremos, gostamos, precisamos ou aquilo que esperam que a gente faça (entenda aqui, essa expectativa de acordo, também, com nossa idade).”

Aqui é válido abrir um parênteses sobre “o que socialmente se espera na velhice”, e isso tem um desafio sério aos terapeutas ocupacionais: Socialmente, por conta do Idadismo – preconceito com a idade que tem estigmas relacionados à incapacidade e fragilidade na velhice – nem o idoso, nem seus grupos sociais, na grande maioria das vezes, não esperam muito em relação a um engajamento ocupacional produtivo social e economicamente. (Leia mais sobre Idadismo no final deste post).

Ao retomar a questão do significado, para identificar ocupações valiosas ao cliente, o terapeuta ocupacional pode investigar/conscientizar através de questões corriqueiras, como: 

  • Ao tentar fazer o cliente responder quais as ocupações que ajudariam a definir a pergunta ‘Quem é você? ‘. Ao relacionar as ocupações relacionadas aos papéis e atividades cotidianas que ajudariam a definir a identidade da pessoa, o terapeuta pode ter pistas importantes sobre as ocupações valiosas do cliente. 
  • Uma outra questão, é que as ocupações valiosas são aquelas que você quer realizar, mesmo tendo outra forma ou outra pessoa para fazer. O cliente consegue identificar isso?

Existe uma característica do envelhecimento que encurta esse hall de ocupações: existe uma tendência a selecionar menos metas e atividades, mas com mais significado. 

Reconhecer o que é valioso à medida que se envelhece ajuda a tomar decisões e a planejar questões importantes, como compreender onde se quer envelhecer, que características o cotidiano deve ter, com quem se quer estar e em quais ocupações existe o desejo de continuar realizando. (O cuidado aqui é somente estar atento às questões de idadismo que podem permear essas escolhas – pq pode existir a capacidade, mas o estigma relacionado à idade). 

O processo do envelhecimento

No processo de terapia ocupacional precisamos saber de forma verticalizada e sempre buscar a atualização – pq cada vez se envelhece mais e isso exige de nós entender esse processo no contexto onde vivemos e onde o paciente vive – sobre o que de fato é envelhecer. Um processo de educação grita por necessidade de acontecer cada vez mais no meio do envelhecimento e nos contextos sociais onde o paciente e os familiares estão.
 
Em especial, sobre o processo único que é o envelhecimento? Educar sobre a senescência -as  alterações não associadas a doenças (acúmulo de diversidade de danos moleculares e celulares) que aumentam o risco de doenças; Além das mudanças nos papéis sociais, o lidar com perdas e os objetivos e prioridades que parecem mudar, justamente relacionada a tendência de selecionar menos metas e atividades, mas com mais significado.
 
Mostrando de forma prática, através das ocupações e vivências, que cada processo é único e que os mais variados padrão de funcionalidade acontecem.
 
Felicidade ou Bem-Estar-Subjetivo (BES)
 
No material educativo Envelhecimento e Felicidade (2020), através de textos e exercícios educativos e reflexivos sobre as questões que permeiam a saúde, o envelhecimento e o BES, aspectos trazidos pela literatura que ajudam a determinar a sensação de felicidade ao longo da vida, são:
  • Manter interação com o ambiente físico e social 
  • Observação e contato com a natureza
  • Atividades intelectuais, como ler e escrever
  • Os relacionamentos 

Cada um desses pontos pode ser abordado de forma verticalizada pelo terapeuta ocupacional que deve estimular, adaptar e promover a interação com o ambiente no qual o idoso está inserido, desde o microambiente (domiciliar) ao macro (a interação com a comunidade). Considerando aspectos relacionados à acessibilidade, pq quanto mais a capacidade intrínseca estiver comprometida (somatório da capacidades físicas e mentais/emocionais) mais o ambiente precisará de compensações.

Especificamente, na relação do ambiente e BES, vale considerar que ambientes naturais ou que permitam a interação com a natureza são capazes de promover uma sensação de bem-estar que impactará no bem-estar ao engajar-se em ocupações.

Os relacionamentos, ganham tópico especial, porque têm se mostrado fundamentais, como vê-se na pesquisa que tem quase 80 anos, Harvard Study of Adult Development, e que nos dá 3 grandes lições que precisam ser consideradas no trabalho junto aos idosos:

  1. Conexões sociais são boas e a solidão mata. Pessoas que estão mais socialmente conectadas com a família, amigos e comunidade são mais felizes, são fisicamente mais saudáveis e vivem mais que as pessoas com poucas conexões. A experiência da solidão é toxica; as pessoas que são mais isoladas do que gostariam descobrem que são menos felizes, sua saúde física decai precocemente na meia idade, seu cérebro se deteriora mais cedo (memória) e a vida fica mais curta do que aqueles que não são solitários. E as pesquisas mostram muitos solitários.  De acordo com relatório recente da OMS sobre  Isolamento social e Solidão entre os idosos, 20-34% dos idosos na China, Europa, América Latina e Estados Unidos da América são solitários. Lembrando que existe solidão, mesmo tendo pessoas por perto. Para os terapeutas ocupacionais fica a pergunta que precisa ser respondida junto ao idoso/família: Quais ocupações podemos estimular, adaptar para que o idoso viva as suas conexões sociais
  2. Não é sobre o número de amigos que você tem, não é sobre estar ou não em um relacionamento sério, mas sim a qualidade dos seus relacionamentos mais próximos. Viver em conflito é ruim para nossa saúde (nesse ponto, entendemos quando o casamento é pior que o divórcio). Relações boas, reconfortantes nos protege. O estudo mostra que as pessoas que estavam mais satisfeitas em seus relacionamentos aos 50 anos, eram as mais saudáveis aos 80 anos. Sendo também os relacionamentos bons e íntimos que parecem nos proteger das circunstâncias adversas do envelhecimento. No estudo pessoas com dor aos 80 anos em bons relacionamentos viviam essas dores com mais bom humor que pessoas nas mesmas circunstâncias de dor, mas em relacionamentos infelizes, que viviam esses processos dolorosos com mais intensidade.
  3. Relacionamentos saudáveis protegem nosso corpo e cérebro. O declínio da memória parece ser menor naqueles que têm bons relacionamentos. Mesmo os bons relacionamentos sendo aqueles que o casal “discute o dia inteiro”, mas que sabem que podem contar um com o outro. 

(Leia mais: Isolamento Social e Solidão no Envelhecimento, material da OMS)

Aos terapeutas ocupacionais o caminho para intervenções que cultivem a felicidade da velhice parece estar em:

  • Agir como agentes de mudança social através da educação sobre envelhecimento
  • Personalizar o processo de cuidado através do empoderamento e escolha das ocupações com significado pessoal, em especial no que tange às relações
  • Proporcionar o estabelecimento, retomada e fortalecimento das ocupações que geram oportunidade de conexões sociais 

Assim, seremos felizes para sempre na vida, ao longo da vida, o que inclui a velhice

Fontes:

 

 

Sou terapeuta ocupacional de formação, comunicadora por dom e experiência ao longo dos 10 anos frente ao reab.me; empresária que aposta na produção de produtos e conteúdos significativos e com propósito para ajudar as pessoas que precisam dos cuidado da reabilitação. Editora-chefe do Reab.me. Terapeuta Ocupacional (UFPE) com especialização em Tecnologia Assistiva (UNICAP). Mestre em Design (UFPE). Sou autora de 4 livros de exercícios para estimulação cognitiva que servem como material de apoio em contextos terapêuticos que visam a manutenção ou melhora de disfunções cognitivas. Sendo eles: - 50 exercícios para estimulação cognitiva: o cotidiano em evidência; - 50 exercícios para estimulação cognitiva: a culinária em evidência; - 50 exercícios para estimulação cognitiva: a família em evidência; - 50 exercícios para estimulação cognitiva de crianças com dificuldades de aprendizagem. No mais, sou Ana, esposa de Fábio, mãe de Olga e Inácio. Praticante de meditação e yoga.

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