O que é o Envelhecimento para a Terapia Ocupacional?

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Esse conceito é uma construção. E, por isso mesmo, sempre requer atualização, em especial quando queremos observar as variações nos clássicos aspectos de mudanças no corpo, mente, emocional e social de quem envelhece, bem como das respercurssões desse entendimento em cada área do conhecimento. Sabendo o que é envelhecer, saberemos como agir com as ferramentas técnicas que temos ao nosso dispor.

Para o OMS, em seu Relatório Mundial sobre Envelhecimento Saudável (2015) , “as mudanças que constituem e influenciam o envelhecimento são complexas . No nível biológico, o envelhecimento é associado ao acúmulo de uma grande variedade de danos moleculares e celulares. Com o tempo, esse dano leva a uma perda gradual nas reservas fisiológicas, um aumento do risco de contrair diversas doenças e um declínio geral na capacidade intrínseca do indivíduo. Sendo a capacidade intrínseca o resultado da interação da saúde física e emocional de uma pessoa, e do ambiente em que a pessoa vive. 

Em última instância, todos esses danos resultam no falecimento. Porém, essas mudanças não são lineares ou consistentes e são apenas vagamente associadas à idade de uma pessoa em anos.” Essa consciência e educação que o envelhecer é único para cada pessoa e influenciado por vários fatores, é algo que precisa ser mais trabalhado entre profissionais da área com as pessoas que recebem assistência e também socialmente.

“Atualmente, o envelhecimento é compreendido a partir da relação entre os diferentes aspectos biológicos, psicológicos e sociais que podem impactar na cognição e na capacidade de lidar com as atividades cotidianas”. Esse, por exemplo, é um entendimento que enfatiza o impacto que tem relação com o que é o cerne do conhecimento da Terapia Ocupacional, a ocupação humana permeada por suas atividades. Aqui as autoras do capítulo “Terapia Ocupacional no idoso” lembram que: “O ser humano é um ser ocupacional e, portanto, qualquer interferência sobre sua funcionalidade repercutirá sobre ele e aqueles que o cercam.” E, a funcionalidade será impactada por todas as modificações que ocorrem no processo de envelhecer.
Se queremos um recorte muito importante para quem trabalha com cognição e envelhecimento, a compreensão a seguir é fundamental:
Sob o ponto de vista do aspecto biológico, sabe-se que o envelhecimento é um processo que afeta todos os sistemas do organismo, sendo que, no sistema nervoso central (SNC), o envelhecimento é caracterizado por alterações funcionais (nas vias neuronais e neurotransmissores) e por alterações estruturais (com hipotrofia – diminuição do volume -cerebral). Os prejuízos cognitivos podem ser observados mesmo em idosos saudáveis, sem a presença de uma patologia cerebral. No entanto, inúmeros fatores podem influenciar o desempenho cognitivo e funcional, como escolaridade, hábitos de vida, atividades intelectuais ao longo da vida, bem como a presença de transtornos mentais, como depressão, ansiedade e/ou quadros demenciais.
Alguns estudos mostram que idosos com declínio cognitivo apresentam perdas funcionais, ou seja, a perda cognitiva que impacta na capacidade do idoso em realizar as atividades cotidianas e, por sua vez, pode estar relacionado à maior chance de desenvolver quadros demenciais. Sendo assim, a manutenção de habilidades cognitivas e funcionais torna-se fundamental em qualquer condição ou fase do processo de envelhecimento.
Nesse sentido, a literatura sugere a implementação de serviços com ações que visem à prevenção de alterações cognitivas e funcionais relacionadas ao envelhecimento, que promovam a estimulação de habilidades físicas e psicossociais, bem como que visem à manutenção da saúde global, funcionalidade e qualidade de vida da população idosa. Programas de estimulação cognitiva e de atividades sociais e de lazer têm demonstrado resultados positivos com relação à melhora de aspectos cognitivos e na funcionalidade, com melhora de sintomas depressivos e na qualidade de vida em idosos.
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De um modo geral, no processo de envelhecimento, o comprometimento cerebral diretamente na ação motora involuntária, resultando, em última instância, na incapacidade para desempenho de atividades cotidianas. (Fonte: Terapia Ocupacional no Idoso. Livro Clínica Psiquiátrica. 2020)
“Além disso, a idade avançada frequentemente envolve mudanças significativas além das perdas biológicas. Essas mudanças incluem mudanças nos papéis e posições sociais, bem como na necessidade de lidar com perdas de relações próximas. Em resposta, os adultos mais velhos tendem a selecionar metas e atividades em menor número, porém mais significativas, otimizar suas capacidades existentes, por meio de práticas e novas tecnologias, bem como compensar as perdas de algumas habilidades encontrando outras maneiras de realizar tarefas.” Essa compreensão relata no Relatório da OMS sobre Envelhecimento Saudável, deixa uma clareza que as mudanças no corpo são acompanhadas por outras alterações e um padrão de mudança que leva os adultos mais velhos a terem mudanças em seu padrão de escolha ocupacional, sendo as atividades em menor número, mas mais significativas.
Os objetivos, as prioridades motivacionais e as preferências também parecem mudar.
Embora algumas dessas mudanças possam ser guiadas por uma adaptação à perda, outras refletem o desenvolvimento psicológico contínuo na idade mais avançada, que pode ser associado ao “desenvolvimento de novos papéis, pontos de vista e muitos contextos sociais inter-relacionados”. Essas mudanças psicossociais podem explicar por que em muitos cenários, a idade avançada pode ser um período de bem-estar subjetivo (BES) maior (OMS, 2015). É válido aqui lembrar que o BES é o constructo relacionado à felicidade nas pesquisas que buscam compreender o que determina a felicidade ao longo da vida.
De uma forma geral, precisamos de ações e respostas de cada nicho de cuidado e tb sociais, mas tb de ordem de saúde pública sobre o envelhecimento; sabendo que é importante não só considerar as abordagens que melhoram as perdas associadas à idade mais avançada, porém também as perdas que podem reforçar a capacidade de resistência e o crescimento psicossocial. Porque só compreendendo como e onde o envelhecimento se torna uma “dor pessoal e à sociedade” podemos agir de forma a de fato fazer o idoso pertencer e ser saudável.
Fontes:

 

 

 

 

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