Trouxe luz pra mim: uma experiência com reeducandos de uma unidade prisional do Estado de Pernambuco utilizando a técnica de light painting

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Ausência de luz. A ausência de liberdade. Portas, portões, grades, cadeados, chaves. Sala. Um aconchego. Grupo. Luzes. Cores. Criatividade. Criação. Sensações. Sentimentos. Transformação. Busca pela vida. Presença de luz.

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Em meio ao desafio de realizar uma intervenção a nível de estágio da pós-graduação em Arteterapia e Linguagens Corporais oferecida pela FAINTVISA/TRAÇOS, pude escolher, juntamente com meu parceiro de estágio Moa Lago, vivenciar momentos de construção com reeducandos em uma unidade prisional do Estado de Pernambuco. O estágio se configurou em dois encontros semanais de, em média, 3 horas, em um período de 3 meses e meio. Foram utilizadas diversas técnicas plásticas para o processo arteterapeutico do grupo. Iniciamos o grupo com 9 participantes que, ao longo do processo, por diversos motivos, precisaram se afastar, concluímos, portanto, com 4 participantes que estavam desde o início.

O processo passou por 3 etapas descritas pela Arteterapeuta Ângela Philippini em seu livro Grupos em Arteterapia: Redes Criativas para Colorir Vidas: O do diagnóstico (Ciclo I); o dos estímulos geradores (Ciclo II) e; dos processos autogestivos (Ciclo III). Não demorou muito e pudemos observar que o tema do grupo, surgido no momento do diagnóstico, girava em torno de liberdade, transformação. Liberdade em um sentido mais amplo do que a mera ideia da liberdade penal, mas uma liberdade criativa, para que eles pudessem transformar criativamente seus anos, meses, segundos dentro daquela instituição. E foi assim: Focados em uma frase repetida diversas vezes pelo grupo, nós pudemos facilitar o processo, pois eles estavam “presos de corpo, mas a mente está livre”.

Ao entrar no ciclo II, o grupo se firmou como tal e ganhou asas que os permitiram viajar para bem longe daquele lugar amargo para eles, descreveram ganhar mais vida nos seus dias, mais cores, mais arte. Pudemos observar o quanto a fotografia presente em todos os encontros para um registro das produções, fazia tanto sentido para eles como um novo instrumento de criação. Em um local onde se vive a mortificação do eu, onde são despidos da sua vida social, afastados de si como sujeitos, vivendo como números de prontuário, de artigo penal e apelidos adquiridos por companheiros de cela que sequer sabem seu nome, fazia muito sentido trabalhar com o resgate da auto-imagem, aproximar sua vida de sua imagem, relembrar quem é cada um. A partir deste resgate é que seria possível o sucesso do tema trazido por eles. É entrar em contato consigo para ter a liberdade para se transformar. Foi bonito.

Utilizamos a fotografia, dando uma nova roupagem, uma nova possibilidade. Utilizamos uma técnica chamada light painting que é possível ser feita sob a ausência da luz ambiente, mas necessita de focos de luz e esses focos de luz seriam construídos, manipulados, desenhados, pintados pelo grupo e por cada um dos participantes.

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Descobrir a fotografia como possibilidade de produção de sua própria liberdade trouxe verdadeiras transformações para eles. Com as luzes apagadas, foi mais fácil quebrar a timidez e ensaiar inclusive passos de dança. Movimento. As ideias estavam se transformando, mas o corpo…esse já pudemos ver nítidas transformações.

Inocência da nossa parte. Se pudemos ver nítidas transformações corporais, a psique de cada participante já havia se transformado, re-transformado e continuaria se transformando e continuará se transformando. O corpo foi reflexo de tanta transformação e do sentimento de liberdade que eles adquiriam a cada encontro.

Eles criaram e se recriaram. Trouxeram imagens e palavras nas produções remetendo a questão da identidade. Todos os integrantes fizeram uma analogia da luz com a liberdade, como esperança de transformação para aquele corpo preso, de uma maneira também simbólica.

O trabalho rende, até hoje, muitos frutos e desdobramentos belíssimos. Resolvemos revelar as imagens produzidas e trabalhar com tinta, em cima das imagens construídas com luzes. Nem o grupo nem nós, facilitadores, conseguíamos nos desprender do presente que a fotografia nos deu. As fotos reveladas se transformaram em personagens, paisagens, lugares, de um curta-metragem em stop motion, que produzimos nos encontros finais do estágio. A imagem de um rosto, por exemplo, foi transformada no rei, o protagonista de uma história real, de dor, de encontros e de renascimento.

A fotografia trouxe novas oportunidades de vida para aquele grupo, para nós facilitadores e, espero, para a arteterapia. Uma técnica um tanto desconhecida no meio arteterapêutico começou a fazer sentido e ser tão necessária para a promoção de vida, desaúde, de (re)nascimento.

A luz que pintou aqueles “corações dilacerados” (título de uma das imagens produzida durante a experiência) atravessou grades e invadiu um ambiente tão desumano, trouxe esperança, trouxe alegria, trouxe lágrimas, os mais diversos sentimentos, trouxe o desejo de (re)começar.

Júlia Santos

Psicóloga. Mestre em psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco. Especialista em Arteterapia e Linguagem corporal pela FAINTVISA/TRAÇOS. Especialista em formação em m Saúde Mental, Álcool e Drogas: Práticas e Saberes. Experiência com usuários de drogas pelo Programa Atitude como técnica do Atitude nas Ruas do município de Jaboatão dos Guararapes. Atende como psicóloga e arteterapeuta no Lumen. Facilitadora de oficina de light painting

3 COMENTÁRIOS

  1. Mais do que liberdade e tantas outras coisas obviamente vividas durante o estágio e a repercussão na vida de cada um, vejo muito encanto numa jornada de descobertas em um meio que para muitos não há mais nada a fazer.
    Acredito muito na Arteterapia como caminho para o resgate de muitas vidas, e sou imensamente grata por conhecer de perto você, Ju.
    Beijo grande e quero mais textos seus por aqui. Que a Arteterapia ganhe ainda mais o mundo! \o/

  2. Sou terapeuta ocupacional, passei 4 anos no sistema prisional, por meio do método APAC, utilizando as oficinas terapeuticas no processo de reintegração social dos reeducandos da Cidade de Pedreiras/MA, hoje estou fazendo parte da implantação de novos presidios aqui em São Luis, após os caos que aconteceram anteriormente, para preconizar o que diz a LEP – Lei de Execuções Penais, mas preciso da contribuição de técnicas como esta, se puderem me enviar mais materiais, ou informações como a Arteterapia, ficarei muito grato, pois estes reeducandos precisam desenvolver atividades como esta para retornar ao convívio social. Obrigado! JOSÉ SANTOS

  3. Magda, obrigada sempre pelo apoio, pelas críticas! Acredito que a Arteterapia está em boas mãos com você também fazendo parte dela! Precisamos, cada vez mais, expor nossos trabalhos para trazer novas possibilidades pras pessoas que precisam de intervenções! Obrigada, obrigada, obrigada!

    José Santos, posso dialogar com você sobre o tempo que passei fazendo intervenção nesse presídio e em outros quando trabalhei com a Redução de Danos, porém também utilizando a arteterapia.
    Envia um email para mim que podemos conversar.
    julia_santos86@yahoo.com.br
    Grata

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