Em busca de pistas orgânicas

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Marcadores biológicos podem ser a chave para sinalizar o autismo já nos primeiros meses de vida.

Qualquer pessoa que passa alguns momentos com uma criança autista logo percebe os principais traços de seu comportamento: ausência de contato visual, tendência a mover objetos de forma circular, reações desproporcionais e dificuldade de compreender emoções alheias e de expressar os próprios sentimentos. Essas características, porém, não são perceptíveis até o quarto ou quinto ano de vida, o que torna o diagnóstico precoce muito difícil. “Perdemos uma valiosa oportunidade de tratamento no período em que o cérebro ainda apresenta uma tremenda plasticidade”, diz o professor de neurobiologia e psiquiatria David G. Amaral, da Universidade da Califórnia em Davis. Ele é um dos muitos cientistas empenhados em desenvolver técnicas para identificar o problema nos primeiros 6 meses ou, quem sabe, até mesmo logo após o nascimento. Os resultados das pesquisas estão ampliando a compreensão do distúrbio e alimentando a esperança de uma futura terapia − específica e precoce − que poderia melhorar as perspectivas do autista na infância, adolescência e idade adulta.

Em 2005, Amaral apresentou resultados preliminares de sua pesquisa no Encontro Internacional para a Pesquisa do Autismo, em Boston. Sua equipe comparou amostras de sangue de 70 autistas entre 4 e 6 anos com as de outras 35 crianças saudáveis. Nas primeiras eles observaram uma proporção mais alta de duas células imunológicas, os linfócitos B e T, além de diferenças significativas em mais de 100 proteínas e pequenas moléculas normalmente encontradas na corrente sanguínea. Depois de uma análise minuciosa, os pesquisadores concluíram que as evidências eram fortes o suficiente para justificar uma investigação em larga escala.
Amaral dedica-se no Projeto Autismo, chefiado por ele no Instituto de Análise Médica dos Transtornos do Desenvolvimento Neurológico da Universidade da Califórnia. O objetivo é analisar as proteínas plasmáticas, o sistema imunológico, estruturas e funções cerebrais e as condições genéticas e ambientais de 900 crianças autistas, metade delas com atrasos significativos do desenvolvimento, que serão acompanhadas por vários anos. O pesquisador tem esperança de que marcadores biológicos, genéticos ou não, sinalizem o problema talvez já nos primeiros meses de vida. “É possível que algumas crianças nasçam com uma predisposição genética, sendo necessário o contato com algum fator ambiental que desencadeie o transtorno”, diz Amaral.

A suspeita da influência ambiental existe porque, por algum motivo ainda desconhecido, a prevalência de autismo é particularmente alta nos Estados Unidos, onde se estima que uma em cada 100 crianças sejam afetadas. “Além disso, a enorme variação dos sintomas é algo que nos leva a acreditar que o autismo constitui um grupo de transtornos, isto é, há vários autismos, não apenas um”, afirma Amaral. Segundo ele, a pesquisa de marcadores biológicos talvez possa identificar esses possíveis subtipos. Os especialistas em comportamento concordam; muitos preferem a expressão “transtornos autistas” em vez de simplesmente “autismo”.

Ulrich Kraft é médico e jornalista científico.

Ana P.

Fonte: Mente e Cérebro

Foto: Mike Tigas

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