Contribuição da Terapia Ocupacional para o ambiente construído

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Para quem não sabe, vou contar: tenho “minhas relações” com construção civil. Na realidade, no meu Mestrado ando estudando ambiente construído e ficando com “olho de águia” para certas contribuições que nós, terapeutas ocupacionais, podemos dar.

Quando se olha um espaço físico sem o conhecimento prévio das variáveis que o compõem, ele pode ser descrito como “um ambiente com paredes e piso” que vai servir para alguém morar, trabalhar ou se divertir. No entanto, quando olhamos um espaço físico com “conhecimento de causa” vemos um ambiente com revestimentos, dimensões e variáveis de conforto (iluminação, temperatura, ruído) que vão contribuir ou dificultar a funcionalidade do espaço. Pois é, “o buraco é mais embaixo!”.

Um terapeuta ocupacional sabe que em um ambiente não bastam tecnologias assistivas e orientações para garantir o sucesso da interação entre os usuários e o ambiente. É necessário considerar a subjetividade, ou melhor, a maneira que cada um tem para desempenhar suas tarefas; a maneira que as habilidades motoras, sensoriais, cognitivas se misturam aos fatores psicossociais e … pronto: ali está uma forma diferente de usar o ambiente. Aí está a questão que determina comentários como esse: “se a cozinha da casa dela fosse a minha eu faria diferente. Eu precisaria de um ponto de luz em cima dessa bancada de granito preto porque simplesmente não enxergo tão bem”.

A afirmativa acima chama a atenção não apenas para as diversas condições de saúde, mas para as diversas condições de desempenho determinadas por fatores como: a idade, os papéis sociais desempenhados naquele ambiente, as preferências de uso do espaço e até estética (mas a estética é um ponto bem posteior ao que quero chegar).

Voltando ao cerne da questão: “a contribuição da Terapia Ocupacional no Ambiente Construído”, vale apresentar o terapeuta ocupacional como profissional estudioso das ocupacões humanas, dos hábitos, rotinas, interesses e capacidades dos clientes, ou seja, como profissional capaz de traçar o perfil ocupacional do usuário e ajudar o arquiteto a adaptar o ambiente construído.

Existem normas para iluminância, ruído, dimensões, acessibilidade, no entanto, não existe uma fórmula que ensine a aplicar essas normas de uma forma que garanta  a adequação subjetiva dessas variáveis para o uso eficiente daquele ambiente.

Vou exemplificar isso de uma forma simples e bem real. Ao acompanhar o uso de um apartamento todo planejado por um arquiteto (de um bom gosto incrível, vale ressaltar!!) foram encontradas barreiras que comprometem o uso seguro do ambiente para o perfil ocupacional das moradoras: duas senhoras, uma com dificuldade importante na marcha e outra com Alzheimer na fase avançada.

Na primeira imagem vê-se um trilho para porta da varanda. Este trilho não é embutido e representa uma barreira para as duas senhoras devido à altura. Para adultos jovens a altura do trilho não representa um risco, mas para idosos, que na fase de balanço da marcha elevam menos o membro inferior, pode levar à quedas.

A segunda imagem mostra uma porta que já levou uma das idosas à lesões no membro superior. Neste caso, a maçaneta que causou as lesões poderia não existir pois a porta é dispensável: a idosa que dorme neste quarto tem Alzheimer e não há situações ou períodos em que precise ser fechada.

Em ambos os casos, com um exemplo simples, percebe-se a importância de ter um profissional como o terapeuta ocupacional envolvido na fase de planejamento/adaptação do ambiente construído. A parceria desse profissional com um arquiteto pode ser valiosa para otimizar a usabilidade do espaço e garantir a segurança dos moradores, afinal “cada um é único” e merece que seu espaço também seja…

Ana Katharina Leite

Um artigo interessente que achei sobre maçanetas e usuário idoso. Clica e confere!

Sou terapeuta ocupacional de formação, comunicadora por dom e experiência ao longo dos 10 anos frente ao reab.me; empresária que aposta na produção de produtos e conteúdos significativos e com propósito para ajudar as pessoas que precisam dos cuidado da reabilitação. Editora-chefe do Reab.me. Terapeuta Ocupacional (UFPE) com especialização em Tecnologia Assistiva (UNICAP). Mestre em Design (UFPE). Sou autora de 4 livros de exercícios para estimulação cognitiva que servem como material de apoio em contextos terapêuticos que visam a manutenção ou melhora de disfunções cognitivas. Sendo eles: - 50 exercícios para estimulação cognitiva: o cotidiano em evidência; - 50 exercícios para estimulação cognitiva: a culinária em evidência; - 50 exercícios para estimulação cognitiva: a família em evidência; - 50 exercícios para estimulação cognitiva de crianças com dificuldades de aprendizagem. No mais, sou Ana, esposa de Fábio, mãe de Olga e Inácio. Praticante de meditação e yoga.

2 COMENTÁRIOS

  1. Ana, adorei o post e quero aproveitar para escrever uma frase dita por você (numa das nossas ótimas conversas com chocolate quente) que achei super valiosa: ¨O grande segredo da acessibilidade na construção civil, não é simplesmente a construção de uma rampa ou de portas mais largas, mas é o planejamento de ambientes que possam ser futuramente adaptáveis¨. Como seria bom se os arquitetos e as construtoras trabalhassem assim. Bjs amiga!!!!

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