É importante começar lembrando que os instrumentos para rastreamento têm por finalidade identificar os sinais precoces de risco do autismo, e não de diagnosticar o transtorno. Mas por que é importante rastrear? O rastreamento dos sinais precoces é crucial para um diagnóstico também precoce, viabilizando uma intervenção efetiva que possibilite a melhora no desenvolvimento e na qualidade de vida da criança com autismo.

De acordo com a American Academy of Pediatrics, o rastreamento dos sinais do autismo deve ser realizado entre os 18-24 meses de idade por meio de instrumentos padronizados para tal finalidade. Caso a criança seja identificada com sinais de risco de autismo, ela deverá ser encaminhada para uma avaliação mais abrangente de modo a confirmar o diagnóstico. Essa confirmação é possível já no final do segundo ano de vida da criança, embora a idade média de diagnóstico seja de 5,7 anos.

O estudo de revisão sistemática publicado na Psico-USF, da Universidade de São Francisco, identificou os instrumentos disponíveis para rastreio dos sinais do autismo em crianças com até 36 meses de idade.

Para tanto, foi conduzida uma revisão de artigos publicados entre 2004 e 2015 nas bases de dados eletrônicas SciELO, PubMed, PsycINFO e Lilacs. Foram encontrados 11 instrumentos em 34 artigos analisados, sendo que apenas um instrumento (M-CHAT) foi traduzido para o português, o que indica uma escassez desses instrumentos no Brasil.

Abaixo, segue a lista dos instrumentos:

  • ADEC Autism Detection in Early Childhood
  • BISCUIT-I Baby and Infant Screen for Children with Autism Traits
  • CHAT Checklist for Autism in Toddlers
  • CHAT-23 Checklist for Autism in Toddlers
  • ESAT Early Screening of Autistic Traits Questionnaire
  • FYI First Year Inventory
  • M-CHAT Modified Checklist for Autism in Toddlers
  • M-CHAT+FUI Modified Checklist for Autism in Toddlers with Follow-up Interview
  • M-CHAT/R-F Modified Checklist for Autism in Toddlers, Revised with Follow-up
  • POEMS Parents Observation of Early Markers Scale
  • RITA-T Rapid Interactive Screening Test for Autism in Toddlers
  • STAT Screening Tool for Autism in Toddlers & Young Children
  • Toddler Autism Questionnaire

(Para ter acesso aos detalhes do estudo, acesse clicando aqui).

Foram encontrados nos parâmetros desta revisão 11 instrumentos listados acima, mas não houve na literatura nenhum instrumento para rastreamento considerado padrão ouro.

O M-CHAT, apesar de reunir o maior número de estudos que indicam propriedades psicométricas adequadas, apresenta limitações. O ADEC é outro instrumento que é promissor, mas que demanda mais estudos. Como dito anteriormente, o M-CHAT é o único instrumento que foi traduzido para o português. No entanto, a entrevista follow-up anexa ao instrumento, que parece melhorar os resultados, não foi traduzida. Apesar de o instrumento ser recomendado pelo Ministério da Saúde, diante dos resultados obtidos por meio desta revisão, acredita-se que é necessário que estudos de evidências de validade sejam conduzidos de maneira a assegurar que ele é adequado para uso no contexto brasileiro.

É oportuno ressaltar a limitação deste trabalho: os artigos foram selecionados a partir de critérios pré-estabelecidos, tais como a escolha das fontes de dados e a eleição das palavras-chave para a busca. A inclusão de livros, dissertações e teses, assim como a eleição de outras palavras-chave poderiam ampliar os resultados. Isso significa que alguns instrumentos podem não ter sido contemplados.

A escassez de instrumentos para rastreamento de sinais precoces do autismo no Brasil encontrada neste estudo de revisão corrobora com achados de outras pesquisas. Isso é preocupante, pois, com isso, muitas crianças permanecem sendo diagnosticadas errônea ou tardiamente sem a chance de participar de um programa de intervenção precoce que oportunize uma melhora do seu quadro clínico.

Acesse o estudo: SEIZE, Mariana de Miranda; BORSA, Juliane Callegaro. Instrumentos para Rastreamento de Sinais Precoces do Autismo: Revisão Sistemática. Psico-USF,  Itatiba ,  v. 22, n. 1, p. 161-176,  Apr.  2017 .

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Editora-chefe do Reab.me. Terapeuta Ocupacional (UFPE). Especialista em Tecnologia Assistiva (UNICAP). Mestre em Design e Ergonomia (UFPE). Consultora em Tecnologia para Reabilitação.

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