O estresse causado pela inclusão

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No último post propusemos falar sobre inclusão, Incluir exige generosidade” e tivemos diversas devolutivas positivas, mas uma me chamou a atenção. Talvez pelo fato de que eu venho realizando pesquisas nesta área, ou talvez pelo simples fato de que a leitora estava correta em suas colocações!

Ela me questionava sobre o estresse que a tal “inclusão” causa nos pais de criança com deficiência, já que naquela ocasião estávamos conversando e valorizando exatamente o que aqui vou nomear como cuidadores familiares. Sendo assim, neste post decidi refletirmos juntos sobre como a inclusão pode causar o tal “estresse” nestes cuidadores familiares.

Em minha vivência clínica é constante a chegada de cuidadores familiares que estão à beira de uma crise emocional. São pessoas que vivenciam diariamente o estigma de serem pais de criança com deficiência e muitas vezes focam tanto nestas questões que cortam a maioria de seus vínculos sociais por não quererem mais “dar explicações” sobre a deficiência de suas crianças.

Nestes casos, me pego pensando em como podemos exigir que estes familiares possam contribuir com nossos atendimentos clínicos ou com todos os profissionais da comunidade escolar, se eles podem não dispor de condições emocionais para desenvolverem estas ações colaborativas junto a nós?

Partiremos do pressuposto de que as questões que falam das consequências que o nascimento de uma criança com deficiência traz a seus cuidadores familiares e da necessidade de acompanhamento destes pelas redes de apoio, já estão sendo debatidas há mais de meio século; assim sendo, vou concordar com a minha leitora e reiterar que não faz mais sentido pensarmos em estratégias para promovermos a inclusão social e o desenvolvimento da criança com deficiência sem ressaltamos a importância de se levar em consideração os aspectos emocionais daqueles que mantêm vínculo cotidiano com estas crianças por laços afetivos.

Em um momento da pesquisa que desenvolvi durante o mestrado busquei explorar um pouco mais estas questões. Da parte dos participantes daquela pesquisa, que eram cuidadores familiares de crianças com paralisia cerebral e frequentavam classes de ensino comum e que também recebiam assistência das redes de apoio, parecia haver estratégias de enfrentamento que contribuíam para a redução do estresse deles. Uma destas estratégias seria a própria característica da criança com paralisia cerebral sendo positivamente percebida pelos cuidadores familiares, esta percepção positiva poderia reduzir a magnitude percebida a respeito da incapacidade física das crianças, o que, por sua vez, poderia contribuir para reduzir o pessimismo e o estresse gerado por aquela incapacidade.

Mas sabemos que muito além de buscarmos ampliar as pesquisas, precisamos inseri-las em nossa atuação, trazendo estes resultados encontrados para o nosso cotidiano clínico. Os estudos são necessários para esclarecermos as complexas questões psicossociais envolvidas na construção de um ambiente inclusivo.

O estresse que o cuidado com a criança com deficiência pode gerar, podem sugerir algumas importantes pistas para a construção da parceria colaborativa produtiva, que deve existir entre a escola, a família e as redes de apoio na concretização da meta comum da inclusão. Portanto, levantarei a questão da necessidade de uma competente parceria entre nós e estes cuidadores familiares em benefício da criança com deficiência.

Seguimos…

Carolina Cangemi GregoruttiTerapeuta Ocupacional (CREFITO 11/13221-TO), M.Sc., Doutoranda em Educação Especial pela Universidade Estadual Paulista – UNESP. Contato: carol.terapeut@gmail.com; Twitter: @carolgregorutti.

Veja também:

Um guia sobre inclusão de pessoas com Autismo na Escola

Cartilha da Inclusão Escolar: inclusão baseada em evidências científicas 

Diversidade na rua: conheça esse projeto lindo de inclusão!

 

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1 COMENTÁRIO

  1. Olá Carolina, bem interessante as suas colocações. Ano passado, tive a oportunidade de realizar uma pesquisa que teve o objetivo de analisar o nível de sintomatologia em cuidadores de pessoas com deficiência. A maioria dos participantes consistiam de cuidadores familiares e nesta oportunidade foi aplicado um teste psicológico para avaliar o nível de estresse. Portanto, a incidência de cuidadores apresentando nível de estresse patológico foi bem considerável. Pelos resultados, se percebe o quanto se faz necessário ter uma rede de apoio para auxiliar estes cuidadores familiares.

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