Nas amarras das atividades: reflexões iniciais sobre programa e/ou grade de atividades de serviços voltados para pessoas que têm problemas com drogas

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Ao visitar alguns serviços e experiências que giram em torno da atenção às pessoas que usam drogas aqui pela Europa, acabei revisitando nas minhas memórias e sentimentos as reflexões que estavam em curso em Recife, um pouco antes de eu vir para cá, sobre programas de atividades.

Discutíamos elementos importantes e estruturantes para o programa de atividades em um serviço específico do Programa Atitude*. Para iniciar esta tarefa parece ser necessário exercitar o estranhamento diante de uma nomeação já naturalizada nas nossas conversações que é a de grade de atividades. Quem aqui já trabalhou em algum serviço (e nem precisa ser só no campo da saúde ou da assistência social) e recebeu ou ofereceu uma grade de atividades? Geralmente, ela fica desenhada e exposta em um quadro dentro do próprio serviço.

A provocação que penso que devemos fazer diante dela é: o que está implicado nesta noção de grade?

Grade me remete logo à prisão, sejam as grades dos presídios, sejam aquelas que precisamos nos cercar (e nos deixar aprisionar) para transformar as nossas casas em um lugar minimamente seguro. Ah! Lembro também das grades de horários na escola. Outra prisão? Não é à toa que, em Vigiar e Punir, ao falar sobre disciplina, mecanismos de controle e vigilância, Foucault se refere aos Hospitais e às Escolas, além das organizações militares.

Voltemos aos nossos serviços voltados para pessoas que usam e tem problemas com drogas. O que vem junto a ideia de grade? É rigidez por todos os lados. Na grade de atividades que oferecemos, nas normas que construímos e que atravessam quase todos os momentos vivenciados pelas pessoas que atendemos, no formato das atividades que propomos.

Ofertamos a suposta grade e esperamos que a pessoa se encaixe nela. Algumas vezes, percebemos que o encaixe está difícil, diante dos diferentes perfis e criamos modalidades distintas. Refinamos a nossa tecnologia. Aí temos o grupo da manhã, da tarde… intensivo, diarista… e, muitas vezes, essa é só mais uma forma de repetirmos o movimento de encaixe.

Mas, ainda assim, tem gente que “não tem jeito”! Não se encaixa de jeito nenhum! Essas são as pessoas que damos, como se diz lá em Recife, alta administrativa, desligamos ou afastamos dos nossos serviços.

Além dessa rigidez, uma das especificidades dos serviços voltados para pessoas que usam drogas, expressas pelas ditas grades, é só ofertar atividade cujo centro é a temática drogas. Como se não bastasse a droga estar no centro da vida dessas pessoas, provocando tanto sofrimento que as fazem buscar ajuda, essas pessoas precisam conviver com um cotidiano que, muitas vezes, trazem grupos que só giram em torno da droga. E mais! É da droga substância, sem chegar nem a compreensão de droga como relação.

Como diria um professor Luiz Fernandes, aqui em Portugal, nós ficamos muitas vezes “entorpecidos” e colocamos a droga no centro da nossa intervenção tanto quanto as pessoas que as usam e tem problemas em função destes usos as colocam no centro das suas vidas. É uma outra rigidez.

Aí, nas minhas andanças por aqui, encontro um lugar chamado Espoir Goutte d’Or (EGO), fundado e coordenado por uma Pernambucana chamada Lia Cavalcanti. Trata-se de uma Instituição voltada para a proteção e o cuidado das pessoas que usam e tem problema com drogas, inscrita em um território marginalizado em Paris. Espoir quer dizer esperança. E é só você olhar o material gráfico da EGO para perceber uma presença de cores e de vida, diferente de grande parte das publicações obre drogas que vemos por aí. A esperança começa pelas cores e se espalha pelo cuidado ofertado.

Passei um tempo lá e fui me surpreendendo com várias coisas, mas vou tentar, neste texto, deter-me ao ponto referente à suposta grade ou, aqui, melhor dizendo, programa de atividades da EGO. Segue uma imagem extraída de um Relatório e que foi a mim explicada pela própria Lia.

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Após os dias da semana, a primeira linha da tabela diz das atividades do Centro de Acolhimento. A segunda linha diz do STEP, que é outra unidade, voltada para a outra forma de acolhimento, que passa por orientações e distribuição de materiais de redução de danos. Tentemos olhar, inicialmente, para a primeira linha, tendo em vista que o Centro de Acolhimento é o serviço mais próximo dos nossos centros de atenção psicossociais do campo da saúde e dos centros de proteção social e cuidado da assistência social.

Primeiro, uma coisa que chama atenção é a quantidade de atividades. Uma por dia. Só uma? Só. Uma atividade que acontece em um horário específico. Uma atividade sistemática. O tempo que sobra é o tempo de circulação, conversas informais ou de consultas ambulatoriais específicas.

Se esticarmos o olho para a segunda linha, que traz as atividades do STEP, percebemos que o modelo de funcionamento difere um pouco. Há mais atividades e a justificativa é que isso ocorre em função da principal característica do serviço, que é de fluxo contínuo. É preciso manter o serviço vivo e tentar diversificar as atividades oferecidas para aumentar as possibilidades de alcançar e assim construir vínculo com a população em maior risco.

Se prestarmos atenção nos temas das atividades, talvez também nos surpreendamos. Onde estão os nossos clássicos grupos de prevenção à recaída e/ou redução de danos? E história de vida e/ou autobiografia? Nenhum grupo de reflexão?

No Centro de Acolhimento, temos artes plásticas, atelier de cinema, espaço para mulheres, preparação de refeições. No STEP, temos atelier de música, atelier de informática, cuidado para os pés, cabeleireiro, atelier de teatro, atelier de cinema.

A recorrência da palavra atelier também não é à toa. Lia nos diz que, quando trabalhamos com populações marginalizadas, segregadas socialmente, tão importante quando propiciar a atividade é dar visibilidade a ela. E dar visibilidade não significa só colá-la nas paredes da unidade. Nesse momento, Lia me mostra uma revista com as principais produções artísticas dos usuários da EGO e diz que enviou a todos os museus de Paris, além de distribuí-la na comunidade.

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Lia afirmou também que as atividades mudam com o tempo, de acordo com as demandas e com os grupos. Fui perguntando sobre cada uma. Se música, teatro, artes plásticas e cinema me são mais familiares, coisas como cuidado para os pés me pareceu muito inusitado. Então, perguntei especificamente sobre as motivações deste grupo. Naquele alvoroço pernambucano, que as décadas em Paris não tiraram dela, Lia pegou uma fotos dos pés das pessoas que chegavam até lá. Começou a explicar que aquelas pessoas viviam na rua, em condições de miséria, caminhavam muito e chegavam lá com os pés feridos, acabados.

A atividade de cuidado para os pés surgiu quando a equipe conseguiu ver quem chegava procurando algum tipo de cuidado. Ou a pessoa nem chegava. A instituição é que chegava nela e ofertava uma atividade que, inicialmente, não estava na suposta grade, mas que era exatamente o que ela precisava.

Acaba que além de bonito, quase poético, e me perguntei quantas vezes, nos nossos cotidianos caóticos, não vemos as pessoas que chegam até nós. E reproduzimos a mesma cegueira quando chegamos até elas. Mais do que bonito e poético, vi também que esse olhar e essa possibilidade constante de construção e reconstrução do serviço acaba sendo estratégico para o serviço se manter vivo, dinâmico. As atividades são constantemente atualizadas, modificadas. Assim, o serviço também se modifica e se renova.

É que precisamos reconhecer que as grades e as estereotipias, que muitas vezes construímos sem nem sequer sentir, não aprisionam só as pessoas que atendemos nos nossos serviços. Também nos aprisionam, colocam-nos diante de trabalhos extremamente repetitivos, enfadonhos, mortos. Quem aqui não se cansou diante da repetição de um usuário? O momento do nosso cansaço, mesmo reconhecendo todas as especificidades da dinâmica psíquica que pode apresentar um/a usuário/a problemático de drogas, podia ser um convite a repensar as nossas práticas, nas nossas repetições e nos nossos aprisionamentos. Pode ser.

A substituição da nomeação de grades por programas de atividades ou, simplesmente, por atividades, para quem acredita que a linguagem é prática social e, portanto, contribui para manutenção de algumas coisas e transformação de outras, parece sim ser importante. Sobretudo, se vier junto à reflexão sobre formas de organização para os nossos serviços que nos permitam buscar esse oxigênio. Oxigênio que é tão necessário para mantermos o fôlego e aumentarmos as nossas possibilidades de transformação, ressignificação cotidianas.

* O Atitude é um Programa de Atenção Integral aos usuários de Drogas e seus familiares, vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos do Estado de Pernambuco. Fui consultora deste Programa por cerca de dois anos e pude contribuir e aprender muito com a construção dos equipamentos e serviços dos mesmos.

Psicóloga, Mestre em Psicologia (UFPE), Doutoranda em Saúde Pública (IFF-FIOCRUZ/RJ). Atua há de dez anos na área de saúde mental álcool e drogas. Terapeuta da Entrelaços e, no momento, encontra-se em Portugal para conhecer a Política de Drogas e fazer parte do seu Doutorado na Universidade do Porto. Entrelaços: http://www.entrelacosrecife.com.br

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