Comecemos pelos sucessos!

0
2630

comecemos

O Lancetti (2006), no livro Clínica Peripatética, ou seja, a clínica que se faz caminhando, no capítulo sobre a práxis peripatética, nos diz: “comecemos pelos fracassos”. Geralmente é esse o caminho que se tem utilizado para o convencimento sobre a importância da Redução de Danos, pretendendo ser uma resposta possível para os casos limítrofes, sobre os quais geralmente não se sabe como intervir.

Mas vamos ousar dizer: comecemos pelos sucessos?

Venho pensando especialmente sobre isso depois de uma conversa virtual em sala de aula para alunos/as de pós-graduação, quando tivemos a alegria de dialogar com o querido amigo e redutor de danos, Denis Petuco, sobre a importância de entender importantes avanços que tivemos nos últimos anos ao pensar atenção integral às pessoas que usam drogas no campo da saúde mental, construindo a redução de danos enquanto tecnologia de cuidado, enquanto dispositivo clínico-político para pensar e intervir (ou não!) nos cenários de usos de drogas, seja um uso funcional ou não, problemático ou não, compulsivo ou não.

Meses antes, exatamente no dia 10 de outubro de 2013, abri uma Roda de Conversa na Faculdade Fanor de Fortaleza, organizada pelo Grupo de Estudos em Saúde Mental, com essa mesma reflexão, propondo começar pelos sucessos, entre eles, de no Dia Mundial da Saúde Mental, pensarmos no tema a partir de um debate sobre redução de danos e usos de drogas, junto com o pessoal do Coletivo Balanceará e a gestão da política sobre drogas do município.

Um dos avanços da redução de danos está em pensar/realizar as ações de saúde mental que acontecem no território geográfico e existencial onde as pessoas vivem e transitam, combinando diversos componentes da subjetividade, gerando ações complexas, mas que tendem à simplificação, como diz Lancetti (2006), fazendo uma comparação com a alta complexidade na atenção em saúde, relacionada às intervenções hospitalocêntricas.

Na saúde mental comunitária, territorial, a maior parte dos “procedimentos” não necessitam de equipamentos, medicamentos ou qualquer combinação dos dois, nos explica o Lancetti (2006) no ainda tão atual livro Clínica Peripatética. Esse tipo de ação necessita de gente! Gente que se perceba como gente e que perceba a outra pessoa da mesma forma. Gente que não precisa se “vestir” de profissional de saúde para ter respeito de quem atende; que não precisa da suposta segurança que um espaço físico “adequado” pode proporcionar para realizar um “atendimento”. Gente em diálogo com gente, que traz suas experiências tantas vezes julgada por nós como inadequadas, insalubres, arriscadas, quando lançamos mão das nossas verdades, de saberes e poderes de agir para controlar corpos, controlar vidas, controlar modos de ser e estar no mundo.

Falamos da redução de danos como uma postura ética de cuidado, como um modo de estar no mundo de uma forma que possibilite esse campo de praticas e modos de pensar, mas, sobretudo nos permite refletir criticamente e intervir politicamente para transformar aspectos tão cruéis que construímos sobre algumas drogas e pessoas que as consomem.

Nessa linha de raciocínio precisamos apenas lembrar que somos preditivos e controladores, já nos dizia Foucault em vários momentos de sua vasta obra. Mas para efeitos didáticos de nossa rápida reflexão, vamos utilizar a leitura de Rabinow e Rose (2006) sobre Biopoder, sobre seus elementos indispensáveis, que obviamente também operam em relação às drogas:

1) construímos discursos de verdade sobre o caráter ‘vital’ dos seres humanos e um conjunto de autoridades consideradas competentes falam essas verdades. Sobre os usos de drogas, o caráter vital nos diz que as drogas devem ser evitadas, que não fazem bem (as não prescritas, claro!) e estão associadas à morte;

2) pensamos estratégias de intervenção sobre a existência coletiva em nome da vida e da morte, que no caso em questão, nos fala da necessidade de criar estratégias de redução de oferta e de procura, justifica a violência e a militarização da política de “guerra às drogas”, nos convence de que a internação compulsória é o melhor para muitas pessoas que usam o crack;

3) produzimos modos de subjetivação, através dos quais os indivíduos são levados a atuar sobre si próprios, em relação a esses discursos de verdade, em nome de sua própria vida ou da sua saúde, de sua família ou de alguma outra coletividade, ou inclusive em nome da vida ou saúde da população como um todo.

Assim, a partir desses modos de subjetivação, produzimos gente que se considera de menor valor, que acha que não tem direito à saúde como “gente de bem”; formamos profissionais que vêm pessoas que usam drogas como menos humanas que outras, ficamos apáticos diante de violações de direitos de quem usa drogas, justificadas por uma suposta bondade para com a outra pessoa que, dizem, precisa ser protegida de algo muito ruim e poderoso chamado crack.

Precisamos nos dar conta desses processos sobre os quais acabo de rascunhar, sem a pretensão de aprofundar em tão poucas linhas, mas de inquietar, para dar vontade de nos lançar ao encontro e entrelaço com a clínica ampliada, para defender e entender a redução de danos como uma postura ética muito mais ampla que um conjunto de estratégias práticas, para avaliar que avançamos muito nesses últimos anos no que se refere à compreensão do que é e como opera a redução de danos.

Estamos diante de um momento singular na história higienista do nosso país e as pessoas que consomem crack são alvo de muitas praticas de “limpeza” das cidades para realização dos grandes eventos esportivos no nosso país. Que reflexões como a que aqui estamos propondo nos auxilie, no mínimo, a entender e denunciar inúmeras violações de direitos humanos que estamos assistindo acontecer cotidianamente. E que nos ajude a adotar posturas acolhedoras do sofrimento humano nesses cenários de dor silenciada e culpabilizada.

Maristela é terapeuta da Entrelaços, psicóloga, Doutora em Psicologia Social pela Universidade Autônoma de Barcelona – Espanha, Mestre em Saúde Coletiva e Especialista em Saúde Pública pela Fiocruz (CPqAM). Atualmente, leciona no curso de Psicologia da Faculdade FANOR/Devry Brasil em Fortaleza.

Psicóloga, Mestre em Psicologia (UFPE), Doutoranda em Saúde Pública (IFF-FIOCRUZ/RJ). Atua há de dez anos na área de saúde mental álcool e drogas. Terapeuta da Entrelaços e, no momento, encontra-se em Portugal para conhecer a Política de Drogas e fazer parte do seu Doutorado na Universidade do Porto. Entrelaços: http://www.entrelacosrecife.com.br

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.