A superproteção justifica tudo?

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Ficou decidido que o amor é o sentimento mais nobre que um ser

humano pode sentir, mas em nome dele, se podem exercer os mais

terríveis egoísmos. SERÁ?

 

Caro leitor,

Não dedicarei esta coluna aos que responderiam NÃO à pergunta feita no título. Tão igual, não dedicaria aos que respondem SIM imediatamente. Dedico aos que me derem esta resposta, ao final deste post. Portanto, proponho reflexão!

Em minhas vivências clínicas diárias esta pergunta sempre está presente bem como as inquietações que seguem. É fato, que não vou me abster daquilo que venho defendendo nos últimos anos como profissional e como cidadã. A importância da família na vida cotidiana da pessoa com deficiência permanece não só como meu objeto de estudo na academia, mas também como a bandeira que quero continuar levantando.

Dito isto, preciso escrever que em minha prática clínica, a experiência com as equipes multidisciplinares e suas culturas próprias (assunto para outra hora…) muitas vezes nos permitia desesperar quando acessávamos a pergunta inicial deste post.

Afinal, a superproteção justificaria tudo?   Incrível pensar que quando chegávamos neste questionamento, toda a equipe paralisava e nos sentíamos quase que num beco sem saída. Em especial, compartilharei com você, meu caro leitor, uma situação não tão rara de acontecer.

Estaríamos nós, julgando ações?

Poderíamos nós, julgá-las?

Acessá-las?

Declará-las?

Aceitá-las?

Questioná-las?

Como deveríamos proceder em equipe mediante aquela situação?

Curioso lembrar, que neste momento, todos olhavam para a psicóloga ‘da vez’ e soltavam frases como: “- você têm que ajudar e  precisa trabalhar com eles, senão nosso trabalho não vai para frente.” Ou então, “- será que dá para dizer com clareza para eles, que aquela criança é capaz de realizar as tarefas que propusemos?”. Mas difícil ainda: “- não vamos fazer nada com a criança, enquanto a família não parar de superproteger”.

Tais falas, sempre direcionadas aos profissionais das emoções, me soavam quase que como um pedido de um MILAGRE e não de um pensar em equipe a respeito de mais uma forma de tratamento para aquela criança. “ – Fale com eles, e tire deles este pecado.”

Com o passar do tempo (e com o ganho da maturidade de todos) parece que a frase passou de um pedido milagroso a um conformismo para uma situação em que a equipe não conseguiria acessar.

A superproteção deve causar isso… Ou seria o amor? Como deveríamos justificar? Não sou especialista no assunto, estou apenas a relatar!

No momento em que passamos a refletir sobre os mecanismos com o que aqueles familiares conseguiam lidar a partir da situação de terem que conviver com a deficiência de suas crianças, a psicóloga passou da função de receptora de pedidos milagrosos à pessoa que nos dava luz para trabalharmos. Nossas experiências compartilhadas faziam refletir não só sobre aquele caso que estávamos discutindo, mas também sobre as diversas situações que passávamos em nossos cotidianos.

Saímos daqueles pedidos e passamos (todos!) a colocar algo como: “- lá em casa faço isso com meu filho, ela é mãe, deve saber o que está fazendo, mas eu como profissional preciso colocar a realidade dos fatos, farei como pensamos, na próxima reunião dou um retorno para vocês.” Estávamos criando empatia com cada história que nos era relatada, com isso compreendíamos que os mecanismos daqueles familiares para lidarem com aquelas situações tidas como difíceis em alguns momentos funcionavam exatamente como nós fazíamos quando tínhamos momentos de dificuldade em nossas famílias.

Superproteger, como a palavra mesmo diz pode ser entendida como uma proteção a mais que ela pessoa pode estar tendo. Em contrapartida, muitos diriam que tudo o que é “radical” é “burro”, portanto, o fato da proteção já ser “super” ela já nos vetaria de milhares de outras possibilidades que teríamos se não fosse tamanha “burrice”.

Em minhas leituras diárias, um autor que tenho me aprofundado é o Erving Goffman. Curioso, mas a leitura daquilo que ele escreveu, trouxe o auxílio que a equipe em que eu estava inserida precisou. Talvez a superproteção devesse ser tida assim, com compreensão. Talvez assim, mudaríamos atitudes e não precisássemos colocar os familiares como oferta milagrosa para elucidar nossos destinos profissionais.

Não sei, mas me parece que a vida segue assim. Aos poucos, deveríamos compreender e corroborar a luz das teorias e o brilhantismo da parceria das práticas em equipe.  

Até a palavra muda de cor, quem sabe o significado e o significante também não possam ser mudados? Está aí, um caminho para as infindáveis discussões sobre a temática familiar!

Seguimos…

Carol.

Carolina Cangemi GregoruttiTerapeuta Ocupacional (CREFITO 11/13221-TO), M.Sc., Doutoranda em Educação Especial pela Universidade Estadual Paulista – UNESP. Contato: carol.terapeut@gmail.com; Twitter: @carolgregorutti.

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